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Pacientes com histórico de trauma podem apresentar maior ansiedade odontológica, hipervigilância, dificuldade de confiança e respostas emocionais exacerbadas durante o atendimento clínico
Os eventos adversos na infância, conhecidos na literatura internacional como Adverse Childhood Experiences (ACEs), constituem um conjunto de experiências potencialmente traumáticas vivenciadas antes dos 18 anos de idade. Entre elas estão abuso físico, emocional e sexual, negligência, violência doméstica e disfunções familiares, como abuso de substâncias, transtornos mentais parentais ou encarceramento de cuidadores.
Desde o estudo seminal de Felitti et al. (1998), realizado pelo CDC e pela Kaiser Permanente, o conceito de ACEs tornou-se um dos pilares mais importantes da epidemiologia contemporânea em saúde pública, demonstrando uma relação dose–resposta entre a exposição a adversidades na infância e múltiplos desfechos negativos ao longo da vida adulta. Nas últimas duas décadas, esse campo de pesquisa expandiu-se significativamente, com revisões sistemáticas e metanálises reforçando sua associação com multimorbidade, transtornos mentais e doenças crônicas não transmissíveis .
Atualmente, o tema é amplamente discutido sob uma perspectiva biopsicossocial e de curso de vida (life-course approach), reconhecendo que a exposição precoce ao estresse tóxico pode alterar os sistemas neuroendócrinos, imunológicos e metabólicos. A ativação persistente do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA), por exemplo, está associada a inflamação crônica de baixo grau e maior vulnerabilidade a doenças cardiovasculares, diabetes e distúrbios psiquiátricos.
Além disso, pesquisas recentes têm ampliado o escopo do impacto dos ACEs para além da saúde individual, incluindo efeitos intergeracionais e familiares, bem como influências no desenvolvimento infantil quando os próprios pais têm histórico de adversidade precoce.
Na infância e na adolescência, os ACEs estão associados a dificuldades emocionais, problemas de comportamento, baixo desempenho escolar e maior risco de exposição a comportamentos de risco. Já na vida adulta, observa-se maior prevalência de depressão, ansiedade, uso de substâncias, doenças crônicas e redução da qualidade de vida.
No campo da saúde bucal, evidências recentes apontam para uma associação entre ACEs e maior prevalência de cárie dentária, dor orofacial e doença periodontal, bem como menor utilização de serviços odontológicos. Uma revisão sistemática e meta-análise recente demonstrou que crianças e adolescentes expostos a múltiplos eventos adversos apresentam piores desfechos de saúde bucal e menor adesão a cuidados preventivos . Esses achados reforçam a importância de compreender o contexto psicossocial do paciente como parte integrante do planejamento clínico.
Além dos efeitos biológicos e comportamentais, os impactos dos ACEs se refletem diretamente na experiência do cuidado em saúde. Pacientes com histórico de trauma podem apresentar maior ansiedade odontológica, hipervigilância, dificuldade de confiança e respostas emocionais exacerbadas durante o atendimento clínico. Isso exige do Cirurgião-Dentista uma abordagem mais sensível e estruturada.
Nesse sentido, cresce a importância da abordagem denominada trauma-informed care (cuidado informado pelo trauma), amplamente discutida atualmente nos serviços de saúde e recomendada em diferentes contextos clínicos. Essa abordagem enfatiza a segurança, a empatia, a comunicação clara e a autonomia do paciente, evitando a reativação de experiências traumáticas durante o atendimento.
Revisões recentes também destacam que o reconhecimento e a triagem de ACEs vêm sendo incorporados progressivamente em ambientes de atenção primária e de pediatria, com o objetivo de melhorar a identificação precoce de vulnerabilidades e promover intervenções preventivas mais eficazes .
Na Odontologia, essa perspectiva é particularmente relevante, especialmente na odontopediatria e no atendimento a pacientes com necessidades especiais. O consultório odontológico pode representar um ambiente de estresse significativo para indivíduos com histórico de adversidade(ACE), tornando essencial o desenvolvimento de estratégias de manejo comportamental, acolhimento e construção de vínculo terapêutico.
Em conclusão, os eventos adversos na infância representam um determinante crítico da saúde ao longo da vida, com impactos profundos e amplamente documentados na saúde geral e na saúde bucal.
A literatura contemporânea reforça a ideia de que os ACEs devem ser compreendidos não apenas como fatores de risco individuais, mas também como fenômenos sociais e de saúde pública, o que exige uma abordagem interdisciplinar e preventiva. Para o cirurgião-dentista, incorporar essa perspectiva significa avançar em direção a uma prática mais humanizada, integral e sensível às experiências de vida dos pacientes.
Por Profa. Dra. Leda Mugayar – Cirurgiã-Dentista especialista em Odontopediatria e em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Diretora da Clínica de Cuidados Especiais Inclusivos da Faculdade de Odontologia da Universidade de Illinois em Chicago (UIC)
2. Senaratne DNS, Thakkar B, Smith BH, Hales TG, Marryat L, Colvin LA. The impact of adverse childhood experiences on multimorbidity: a systematic review and meta-analysis. BMC Med. 2024;22(1):315.
3. Jural LA, Fagundes FA, Risso PA, Cunha AJLA, Magno MB, Paiva SM, et al. Adverse childhood experiences and oral health of children and adolescents: a systematic review and meta-analysis. Trauma Violence Abuse. 2024 Nov 21. doi:10.1177/15248380241297423. [Epub ahead of print]