Que tipo de profissional queremos ser diante das ferramentas de Inteligência Artificial?

Minha geração de Cirurgiões-Dentistas tem uma particularidade que nenhuma outra teve: não vamos precisar nos adaptar à Inteligência Artificial. Estamos nos formando com ela. Softwares que interpretam radiografias, planejamentos digitais em Implantodontia e Ortodontia, escaneamento intraoral, ferramentas que organizam prontuários, transcrevem consultas e apoiam a gestão do consultório já fazem parte da paisagem em que o acadêmico de hoje estuda e o recém-formado começa a atender.

E os benefícios são concretos. Sistemas baseados em IA conseguem identificar alterações radiográficas com elevado grau de sensibilidade, auxiliando na detecção de lesões cariosas iniciais, perdas ósseas periodontais e alterações periapicais que poderiam passar despercebidas em uma análise convencional. Algoritmos aplicados a escaneamentos e planejamentos digitais tornam os tratamentos mais previsíveis, reduzindo retrabalhos. E a automação de tarefas administrativas libera o que temos de mais escasso: tempo e atenção para o cuidado clínico propriamente dito.

Isso poderia soar como vantagem automática, e em parte é. Mas, como presidente do Conselho Nova Geração (CONOGE) da APCD, converso com estudantes e jovens profissionais e percebo que a pergunta que mais ronda essa geração não é técnica, é existencial: a IA vai me substituir?

Minha resposta é não, e ela não é otimismo vazio. O diagnóstico odontológico é ato privativo do Cirurgião-Dentista e resulta da integração entre anamnese, exame clínico, exames complementares, experiência e evidência científica. Nenhum algoritmo entrega isso. A IA é treinada a partir de bases de dados que carregam vieses e limitações, e suas recomendações não são verdades absolutas: são ferramentas auxiliares à decisão de um profissional que continua sendo o responsável legal e ético por cada conduta. Aceitar a conclusão de um sistema sem análise crítica não transfere a responsabilidade para a máquina. Ela permanece conosco.

A verdadeira pergunta, portanto, não é se seremos substituídos, mas que tipo de profissional queremos ser diante dessas ferramentas. E aqui está o ponto que me parece decisivo para quem está na graduação ou nos primeiros anos de carreira: aprender a usar a IA é fácil, nossa geração faz isso intuitivamente. Difícil, e cada vez mais valioso, é aprender a questioná-la. Reconhecer quando o algoritmo erra, entender de onde vêm seus limites, saber explicar ao paciente, de forma acessível, quando e como a tecnologia participou do planejamento do seu tratamento. A própria IA pode ser aliada nessa conversa, com recursos visuais e simulações que facilitam a compreensão do diagnóstico e aumentam a adesão ao tratamento. Transparência não é burocracia: é o que preserva a confiança, elemento sem o qual não existe relação terapêutica.

Há ainda uma dimensão que o jovem profissional precisa incorporar desde o primeiro dia de consultório: a proteção de dados. Quem abre a clínica hoje já nasce sob a Lei Geral de Proteção de Dados, que classifica informações de saúde como dados sensíveis. Imagens, exames e históricos clínicos dos nossos pacientes circulam por plataformas digitais, e cabe a nós garantir que cada ferramenta adotada atenda aos requisitos de segurança, confidencialidade e transparência. Isso inclui informar o paciente sobre a finalidade do uso de seus dados, assegurar seus direitos e protegê-lo contra acessos não autorizados e vazamentos. Para a nova geração, isso não é adaptação a uma exigência nova: é parte constitutiva do exercício profissional.

É por tudo isso que acredito que espaços como o Conselho Acadêmico (COA) e o CONOGE têm um papel que vai além de acompanhar a inovação. A formação do Cirurgião-Dentista do futuro deverá contemplar saúde digital, proteção de dados, bioética e avaliação crítica de tecnologias emergentes. Mais do que aprender a utilizar sistemas inteligentes, será preciso compreender suas limitações, reconhecer vieses e integrar essas ferramentas à prática com segurança. Nosso compromisso é preparar essa geração para liderar esse processo com critério, levando o debate para dentro das faculdades e das nossas atividades e ouvindo o que acadêmicos e jovens profissionais têm a dizer.

A Odontologia dos próximos anos será mais preventiva, mais personalizada e mais baseada em dados, com IA integrada a imagens tridimensionais, impressão 3D, robótica, teleodontologia e sistemas preditivos capazes de identificar riscos antes da manifestação clínica das doenças. Mas o sucesso dessa transformação dependerá menos da evolução tecnológica e mais de como escolheremos incorporá-la ao cuidado, lado a lado com os princípios que sempre nortearam a profissão: beneficência, não maleficência, autonomia, justiça e respeito à dignidade humana. A nossa vantagem geracional não está em dominar as ferramentas. Está na chance de construir, desde a formação, uma prática em que inovação e ética caminhem juntas, e na qual julgamento clínico, empatia e responsabilidade continuem sendo, como sempre foram, insubstituíveis.

Por Dra. Letícia Catarine F.O. Santos – Presidente do Conselho Nova Geração (CONOGE) da APCD

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